FORMATURA DE PROMOÇÃO DE PRAÇAS ! PARABÉNS AOS PROMOVIDOS …

SOLENIDADE MARCA A PROMOÇÃO DE 797 POLICIAI

Escrito por Fabio Evangelista

A formatura realizada na manhã de hoje (24), no pátio da Acadêmia de Polícia Militar de Brasília (APMB), celebrou a promoção de 66 oficiais e 731 praças. O número de 797 policiais promovidos foi motivado devido uma redução de interstício.

“O Governo do Distrito Federal aceitou nosso pedido de redução de interstício. Comunicamos as autoridades e fizemos tudo dentro da legalidade para que fosse possível a realização das promoções de abril,” ressaltou o Comandante-geral da PMDF coronel Florisvaldo Ferreira César.

Ainda segundo o Comandante-geral os pressupostos para as promoções de abril foram o merecimento e a legalidade. Opinião abraçada pelo Governador do Distrito Federal Rodrigo Rollemberg.

“Este ato de redução de interstício nada mais é que um reconhecimento pela dedicação e empenho da PMDF pela melhoria da qualidade da segurança pública”, afirmou Rodrigo Rollemberg.

De acordo com o governador, nos primeiros 90 dias de 2015 a PMDF contribuiu para a redução de, praticamente, todos os índices de violência.

Site PMDF

Manifestações

SEM SAÚDE E SEM VOZ ! ASSIM QUE QUEREM …

LUSIMAR ARRUDALUSIMAR ARRUDA 2CORREGEDORIA DA PMDF ABRE SINDICÂNCIA CONTRA O BLOG JABASTA POR COBRANÇAS DO DIREITO DO POLICIAL AO SERVIÇO MÉDICO !

Em tempos de crise na saúde do policial militar nosso blog foi vítima de uma falta de sensibilidade e ataque a força de expressão que nos é garantida na Constituição Federal. Segundo a Lei que abaixo menciono divulgar e mostrar assuntos de relevância a sociedade não é crime, é apenas tentar sensibilizar um Estado omisso e que se torna repressor.

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Lei nº 2.083 de 12 de Novembro de 1953

Regula a Liberdade de Imprensa.

Art 1º É livre a publicação e a circulação no território nacional de jornais e outros periódicos.

§ 1º Só é proibida a publicação e circulação de jornais e outros periódicos quando clandestinos, isto é, sem editores, diretores ou redatores conhecidos, ou quando atentarem contra a moral e os bons costumes.

Portanto, ordenar  tal procedimento fere a Constituição Federal e também a Liberdade de Imprensa que significa tais atitudes crime contra a informação e a liberdade.

Considerando que o RDE em seu item 3 conforme reza o documento acusatório que a informação do Blog traz consigo a transgressão da disciplina uma vez que tal item mostra “Concorrer para a discórdia ou a desarmonia ou cultivar  inimizade entre militares ou seus familiares.

O problema relatado pelo Blog Jabasta fere todos os policiais e familiares, ambos estão no mesmo barco sem o devido atendimento, isso é lamentável, pois vejo que tal situação pode se inverter uma vez que o prejudicado está claro nos termos relatados.

O Blog é um espaço democrático e que visa cobrar das autoridades competentes a valorização da Categoria, mostrando as Mazelas e a falta de Gestão como ocorre com a Saúde da PMDF uma vez que os recursos que são descontados dos policiais e os recursos previstos na Lei abaixo não chega ao seu devido intento.

LEI 11.134/05

“Art 32. A assistência médico-hospitalar, médico-domiciliar, odontológica, psicológica e social ao militar e seus dependentes será prestada por intermédio de organizações do serviço de saúde da respectiva Corporação, com recursos consignados em seu orçamento, conforme dispuser em regulamento próprio a ser baixado pelo Governo do Distrito Federal.

“Art 33. Os recursos para assistência médico-hospitalar, médico-domiciliar, odontológica, psicológica e social ao militar e seus dependentes também poderão provir de outras contribuições e indenizações, nos termos dos incisos II e III do caput do art. 28 desta Lei.

§ 2o A contribuição de que trata o § 1o deste artigo poderá ser acrescida de até 100% (cem por cento) de seu valor, para cada dependente participante do Fundo de Saúde, conforme regulamentação do Comandante-Geral de cada Corporação.

“Art 34. Para os efeitos de assistência médico-hospitalar, médico-domiciliar, psicológica, odontológica e social, tratada neste Capítulo, são considerados dependentes do militar:

Espero que haja por parte dos Oficiais encarregados de sanarem os problemas junto ao Governo que o façam pois estamos sem atendimento médico e um policial que troca tiros diariamente com bandidos não pode ficar desamparado. Ao Comando da Corporação meu respeito e apreço, mas não podemos aceitar tais procedimentos que ferem a Constituição Federal em pleno século 21.

A Corporação passa por um momento tenso e colocar gasolina no fogo foi o que conseguiram tais “GESTORES”. UMA POLÍCIA COM A NOSSA CAPACIDADE  TÉCNICA NÃO PODE USAR A MORDAÇA OU O CHICOTE, TEMOS QUE SER PARCEIROS. Com esta atitude ai vos digo que eles colaboram para a desarmonia entre Praças e Oficiais.

Por Lusimar Arruda (JABÁ)

 

 

Manifestações

MEDIDAS DE SEGURANÇA DEVEM SER PARA TODOS

No DF: Medidas de segurança para policiais civis. Sucessão de incidentes

De acordo com os policiais, moradores são coagidos a participar de manifestações e da resistência às operações de segurança pública

 

Rodrigo Franco, presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Distrito Federal, o Sinpol, passou a reclamar atenção maior para reforçar a segurança dos agentes. Propõe a adoção de um protocolo de segurança, que exige no mínimo três policiais no exercício de atividades de campo e até um número maior para cumprir mandados de prisão. Tudo isso porque, acusa, policiais viraram alvo da violência no cenário atual, tanto por conta da bandidagem quanto de populares. …

 

Sucessão de incidentes

 

O primeiro caso, lembra Rodrigo Franco, ocorreu há dez dias em Ceilândia Sul. Os policiais foram atender a uma ocorrência de homicídio em um comércio. Na ocasião, os agentes foram confrontados por populares, que ameaçaram os policiais. O reforço foi acionado para contornar a situação. No dia 13, durante uma ação da Coordenação Repressão às Drogas, em Santa Maria, os agentes foram confrontados pelo traficante, que reagiu e “jogou o carro sobre os policiais, atropelou três viaturas, colocando em perigo a integridade dos policiais”, conta Franco. Já na semana passada, conta o presidente, na Vila DNOCS, em Sobradinho, três agentes prenderam em flagrante um traficante, mas familiares e amigos dele acuaram os policiais tentando roubar suas armas.

 

Envolvendo moradores

 

Não é nada, não é nada, os policiais civis lembram que, nas favelas do Rio de Janeiro, os grupos de bandidos que controlam o tráfico não só organizam agora resistência armada à polícia, em especial às UPPs, como açulam moradores contra eles. De acordo com os policiais, os moradores são coagidos a participar de manifestações e da resistência às operações de segurança pública na região.

 

Fonte: Por Eduardo Brito, Jornal de Brasília
blog do Sombra
JABASTA
Na PMDF temos o mesmo problema há anos e nunca percebemos esta preocupação por parte  das entidades de Classe da Corporação e muito menos pelos Comandos que pensam escalar sem questionar ou sequer estudar os espaços que serão ocupados, quais as medidas de Segurança devem ser aplicadas.
Na semana passada havia viaturas nas ruas com duas policiais do sexo feminino para cobrir parte de eventos com mais de mil pessoas e isso está corriqueiro em várias unidades, policiais a dois numa viatura, se abordar um fica com a arma e o outro abordando, isso é muito grave e temos que começar a questionar para o bem de todos.
Todos os dias o policial militar encara o crime, está nas ruas é mais exposto, por isso comandante comece a abordar com os comandantes essa precaução para que possamos estar mais seguros em nosso cotidiano profissional.
Por Lusimar Arruda (JABÁ)
Manifestações

PMDF RESGATA UM BICHO – PREGUIÇA

Polícia Militar Ambiental resgata bicho-preguiça ao lado do zoológico

Segundo um dos policiais que participaram da operação, o animal deve ter saído do corredor ecológico próximo de onde foi encontrado

 
Whatsapp/Reprodução

O bicho-preguiça e um dos homens que o encontrou na rua

O Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA) resgatou um bicho-preguiça no início da tarde desta quarta-feira (22/4). Por volta das 12h, o animal começava a atravessar a rua ao lado do Zoológico de Brasília, quando foi avistado por um motorista que por ali passava.

Fonte : CorreioWeb

Manifestações

PROBLEMAS NO BRASÍLIA SEM FRONTEIRAS

Ministério Público identifica irregularidades no Brasília Sem Fronteiras

Contrato sem licitação, falta de pesquisa de preço e pouca transparência são algumas das irregularidades; iniciativa custou R$ 9,1 milhões


 Helena Mader

 

Reprodução

O programa do governo beneficiou 126 estudantes da rede e 64 funcionários públicos, enviados para as universidades de Ciências Aplicadas de Haia, de Krems e do Arizona

 

 

O Ministério Público de Contas identificou irregularidades no Programa Brasília Sem Fronteiras, criado em 2013 para capacitar servidores do DF e alunos da rede pública em instituições de ensino estrangeiras. Procuradores questionam a contratação, sem licitação, das universidades de Ciências Aplicadas de Krems, na Áustria; de Haia, na Holanda; e do Arizona, nos Estados Unidos. O MP identificou que não houve pesquisa de preços nem detalhamento dos valores repassados às instituições. Os contratos questionados custaram aos cofres públicos R$ 9,1 milhões.

Leia mais notícias em Cidades

A justificativa do GDF para a criação do Brasília Sem Fronteiras foi “contribuir para o processo de internacionalização do conhecimento e da qualificação, fomentar o desenvolvimento da capacidade de liderança e impulsionar a cooperação internacional entre o Distrito Federal e outros países”. O projeto foi lançado quando o governo fez um projeto piloto para beneficiar 126 alunos da rede de ensino e 64 funcionários públicos.
Os estudantes e os servidores embarcaram para os Estados Unidos e para a Europa, com tudo pago pelo Palácio do Buriti. Os jovens fizeram um curso de imersão em cultura americana nos Estados Unidos. E os funcionários aprovados tiveram capacitação em gestão pública na Universidade de Haia, na Holanda. Com o sucesso do programa entre os empregados do Distrito Federal, o governo lançou mais editais para levar mais gente ao exterior.

O edital questionado pelo Ministério Público foi publicado no Diário Oficial do DF em 23 de maio do ano passado. Pelo convênio, 50 servidores viajaram para a Holanda para um curso de liderança em gestão pública para cidades competitivas e inovadoras, a um custo de R$ 1,2 milhão. Outros 125 viajaram para Krems, na Áustria, para fazer o mesmo curso, o que implicou em gasto de R$ 2,3 milhões. Também foram selecionados 340 estudantes da rede pública, que cursaram empreendedorismo na Universidade do Arizona, a um custo de R$ 5,6 milhões. As três iniciativas totalizaram R$ 9,1 milhões.

Fonte: CorreioWeb

Manifestações

SOMOS POLICIAIS E SOMOS HUMANOS

Muitos pensam que somos super heróis que não temos sentimentos e família.
Porém nossa realidade é dura onde enfrentar o crime e proteger a sociedade fica cada vez mais difícil pelas leis, pelo Estado não valorizar o mínimo. Hoje se um policial for baleado onde será socorrido ?
Agora perguntem onde foi parar o Fundo de Saúde dos Policiais que é descontado todo mês ?
Pra que servem as Leis federais que garantem tais atendimentos e a valorização dos profissionais de Segurança desta Capital ?
Nem preciso responder pelo descaso. A sociedade está vendo e precisa de nós…

Por Lusimar Arruda (JABÁ)

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Manifestações

TCDF QUESTIONA CONTRATO

No DF: Suposto sobrepreço de R$ 888 mil suspende pagamento de painéis pelo Detran. Também foram encontradas outras supostas ilegalidades, como direcionamento da licitação, segundo o Tribunal de Contas do Distrito Federal

  •  O Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) determinou a suspensão dos pagamentos e da execução do contrato de locação de painéis eletrônicos feitos pelo Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran/DF) e a empresa paulista Shempo Indústria e Comércio de Eletroeletrônicos e Serviços Ltda. A Corte achou um possível sobrepreço de R$ 888 mil… 

    A análise veio após representação do Ministério Público de Contas (MPC). O corpo técnico do TCDF encontrou, segundo o Tribunal, “fortes indícios de sobrepreço e uma série de outras supostas irregularidades”. São elas: direcionamento da licitação, inconsistência na estimativa do número de painéis necessários, omissão de regras de posicionamento dos equipamentos e erros na elaboração da planilha de custos. O Detran também não elaborou estudo técnico para demonstrar que o aluguel era mais vantajoso que a compra dos equipamentos. 

     

    O contrato prevê a locação de até 40 painéis, por dia, durante 12 meses. O valor total é de R$ 4,464 milhões. Em comparação com outro serviço prestado pela mesma empresa com a Companhia de Engenharia de Trânsito de São Paulo (CET-SP), o TCDF teria encontrado o suposto sobrepreço de R$ 288 mil. Ainda segundo a Corte, uma licitação similar, feita elo Departamento de Estradas de Rodagem do Distrito Federal (DER-DF), a diária de cada painel custa $ 285,33, valor inferior aos R$ 310 contratados pelo Detran. 

     

    Para o advogado da Shempo, Rafael Zanicotti, a comparação entre os contratos firmados pela Shempo com o Detran-DF e a CET-SP não é possível, pois são de naturezas distintas. “Com a CET, a Shempo apenas entregou os equipamentos para a própria companhia operá-los. Em Brasília, somos nós quem operamos os painéis. Com isso, é preciso ter armazéns e outros custos. Essa comparação vem por falta de conhecimento do Tribunal”, disse. Em relação ao comparativo com o DER-DF, alegou diferença de qualidade dos produtos. “O preço não é tão distinto entre os painéis das duas autarquias. São serviços parecidos, mas o contrato com o Detran exigia equipamentos mais modernos, portanto de maior custo. Não existe sobrepreço”, resumiu 

     

    De acordo com a Corte, o estudo também apontou imprecisão na definição da prestação dos serviços e desvio de finalidade da contratação, o que afronta a Lei de Licitações (Lei nº 8.666/1993). O objetivo inicial era instalar os equipamentos em pontos estratégicos do DF para informar os usuários, em tempo real, sobre a ocorrência de impedimentos nas pistas, como obras, eventos e acidentes, para garantir segurança e fluidez no trânsito. Mas há indícios de que a principal utilização dos equipamentos seja a veiculação de mensagens educativas e a propaganda institucional. 

     

    Sobre direcionamento da licitação, uma vez que a Shempo teria entregado um painel ao Detran em março de 2011, Rafael Zanicotti afirmou ser uma prática “corriqueira. “Como o Detran não tem equipamentos próprios, recorreu ao mercado para saber o que queria. Isso é uma prática corriqueira. Se houve direcionamento, não cabe a nós dizer”, afirmou.

     

    O Tribunal deu um prazo de 15 dias para que o Detran-DF explique cada uma das irregularidades apontadas e também apresente um relatório detalhado sobre a utilização de cada painel, contendo a data, a localização e a mensagem veiculada. A empresa Shempo tem o mesmo prazo para se manifestar. Em nota, o Detran afirmou que “suspenderá os pagamentos e a execução do contrato e prestará as informações solicitadas por aquela Corte no prazo determinado” assim que notificado oficialmente.

     

    Fonte: Correio Braziliense
  • Blog do Sombra
Manifestações

Tenente Coronel da PM é suspeito de desvio de dinheiro no DF

Manifestações

HISTORIA DA DEMOCRACIA BRASILEIRA ONDE RECOMEÇA…

Trinta anos sem Tancredo: O fiel da transição

De todos os principais fatos da História do Brasil dos últimos 60 anos, Tancredo Neves só esteve ausente de dois

 

O ator dos últimos 60 anos.

 

No funeral do presidente Tancredo Neves, a saída do corpo para Belo Horizonte.

 

Trajetória do primeiro presidente civil após o regime militar e detalhes de sua agonia à morte são temas de análises de quem acompanhou aqueles dias. …

 

por Jorge Bastos moreno

De todos os principais fatos da História do Brasil dos últimos 60 anos, Tancredo Neves só esteve ausente de dois: o do primeiro impeachment de um presidente da República e o da eleição do primeiro operário no cargo máximo da República. No da sua posse, que não houve, participou, literalmente, de corpo presente, como protagonista de um dos episódios de maior comoção popular da nossa História.

 

Aos 37 anos, como ministro da Justiça, Tancredo viu Getúlio Vargas agonizando nos seus braços e no da filha Alzira Vargas, numa cena descrita por ele a mim, em entrevista, com requintes cinematográficos:

 

— Getúlio morreu nos meus braços e de sua filha Alzira. Quando entramos no seu quarto, cenário da traumatizante tragédia, ainda o encontramos com vida, com o seu corpo pendente em parte para fora do leito. Estava agonizando. Do seu coração jorrava intenso jato de sangue. Acomodamo-lo na cama, quando ele lançou um olhar circunvagante à procura de alguém. Por fim, fixou em Alzira e expirou. Até hoje, não consigo me libertar da profunda emoção e do terrível impacto dessa inesquecível ocorrência.

 

Tancredo Neves, em outro importante episódio da História do país, para garantir a posse de João Goulart na Presidência da República, com a renúncia de Jânio Quadros, assumiu o cargo de primeiro-ministro do governo parlamentarista, criado às pressas para resolver a crise. Depois, com a eclosão do golpe militar, como líder do governo deposto, tentou impedir a decretação da vacância do cargo ocupado pelo próprio Jango. Como deputado federal, tentou impedir, também sem êxito, o fechamento, por duas vezes, do Congresso Nacional. Apesar de ameaçado várias vezes de perder o mandato, sobreviveu à ditadura e, junto com Ulysses Guimarães, escreveu a História do MDB/PMDB.

 

Como repórter, cobri várias missões políticas de Tancredo, principalmente a sua campanha pelo colégio eleitoral e a sua viagem ao exterior, como presidente eleito, sua agonia e morte.

 

Tive várias conversas com Tancredo sobre todos esses episódios. Muitas dessas conversas foram em formas de entrevistas ou matérias em “off”. Agora, nos 30 anos de sua morte, decido tornar pública uma dessas conversas, publicada como matéria de texto corrido, em off , no “Jornal de Brasília”, onde iniciei minha carreira profissional.

 

A conversa foi sobre a cassação de Juscelino Kubitschek:

 

A cassação de Juscelino surpreendeu a todos, parece que menos ao senhor. É verdade?

 

É a mais pura verdade. É uma história muito triste, pois, para explicar por que essa cassação não me surpreendeu, preciso revelar fatos que preferia mantê-los na mais absoluta discrição. No gestão do presidente Juscelino, (Carlos) Lacerda fez uma enorme campanha difamatória contra o governo junto às Forças Armadas. Preocupado com esses fatos, o presidente incumbiu-me a missão de desfazer essas intrigas junto à Escola Superior de Guerra.

 

E o senhor conseguiu realizar essa missão?

 

Tive esse êxito, mas graças ao seu diretor do centro de estudos, Humberto de Alencar Castelo Branco, de quem acabei ficando muito amigo, nessa ocasião.

 

Mas o senhor acabou não votando em Castelo para presidente, não é?

 

Mesmo se quisesse, estava moralmente impedido. Eu era líder do governo deposto. Voltando aos fatos, tempos depois saiu a aguardada lista de promoções do Exército. Havia boatos de que, influenciado pelo ministro da Guerra, marechal Lott, inimigo de Castelo, Juscelino não o promoveria e o mandaria para a reserva. Diante dessa ameaça, fui ao encontro do presidente e verifiquei que, de fato, o nome de Castelo não estava na lista.

 

E o que o senhor fez?

 

Perguntei-lhe o motivo, e o presidente não se fez de rogado: “O Lott me disse que Castelo é um golpista, mau-caráter e filho da puta!” Não me contive e, com todo o respeito, disse-lhe que estava sendo injusto com o militar, que o ajudara a desfazer as intrigas de Lacerda junto às Forças Armadas. Cheguei a dizer: “Presidente, o senhor tem uma dívida de gratidão com o Castelo, e essa gratidão tem que ser expressada agora com a sua promoção”.

 

E qual foi a reação de Juscelino?

 

Ato contínuo, pediu ao ajudante-de-ordem para que este colocasse Castelo do outro lado da linha. E Juscelino já o recebeu saudando como titular do novo posto. Suspirei aliviado, achando que o episódio estava encerrado. Ledo engano, os desdobramentos viriam mais tarde.

 

Como assim?

 

Na noite desse mesmo dia, quando Castelo comemorava a promoção com amigos, um companheiro de farda estragou a festa: “Essa promoção foi conseguida às duras penas. Se não fosse o Tancredo, o presidente não a teria assinado”.

 

Como esse militar ficou sabendo disso?

 

Só estavam três pessoas no gabinete presidencial: o próprio presidente, eu e o ajudante-de-ordem. Tire suas próprias conclusões.

 

E como ocorreram esses desdobramentos?

 

Vitorioso o movimento de 64, Castelo sendo indicado à Presidência, Juscelino e ele tiveram um encontro na casa de Joaquim Ramos, no Rio. Nessa ocasião, Juscelino já estava propenso a votar em Castelo, e ouviu deste a promessa de que não alteraria o processo eleitoral e que, ao final de um provisório mandato, promoveria a realização de eleições diretas. Embora até hoje ninguém confirme esse fato, Castelo teria insinuado apoio à candidatura de Juscelino à sua sucessão.

 

E Juscelino?

 

Parece que não esboçou a menor reação a essa possibilidade, mas garantiu seu apoio à eleição de Castelo. Esse contato fez com que ele, em nenhum momento, pensasse que viria a ser cassado por aquele a quem havia hipotecado apoio, juntamente com a maioria da bancada do PSD. Nem às vésperas da cassação.

 

E como ele ficou sabendo?

 

Foi surpreendido pelos acontecimentos, embora eu o tivesse avisado.

 

Como o senhor ficou sabendo?

 

Por uma deferência do próprio Castelo. Ele me chamou para avisar sobre a consumação daquele ato e me pediu que levasse essa triste notícia para Juscelino. Fui imediatamente ao sítio do presidente Juscelino em Luziânia, onde ele se encontrava reunido com um grupo de amigos, entre eles o poeta Augusto Frederico Schmidt, que praticamente quase me expulsou do local: “Estive ontem com Castelo, e ele me disse que sua mão secaria, mas que ele jamais assinaria a cassação de Juscelino”. No dia seguinte, “A Voz do Brasil” confirmou a minha informação.

 

Por que então Castelo mudou de ideia?

 

Apesar de ele nunca ter me dito, sempre achei que a participação de Castelo não foi uma decisão da sua vontade, mas um ato que lhe foi imposto por injunções inevitáveis da revolução. E isso está muito claro na justificativa do ato dessa cassação.

 

E como entra o episódio da promoção nessa história?

 

Nada me tira da cabeça o sentimento de que o marechal só me comunicou a cassação de Juscelino por conta da minha intervenção na sua promoção e pela atitude de Juscelino de não ter atendido seu próprio ministro da Guerra, que não queria essa promoção.

 

O Castelo, nem indiretamente, comentou esse episódio com o senhor?

 

Nunca! Estive com ele, inclusive, dias antes do trágico acidente que o vitimou, conversamos sobre vários assuntos, mas nada sobre essa promoção.

 

Calvário e glória

por José Sarney

 

21 de Abril de 1985

 

Era o fim do longo martírio de Tancredo Neves. Ouvia-se, no silêncio do tempo, o choro da nação inteira, que acompanhara os 38 dias de suplício que ele atravessara, desde aquela noite de 14 de março, chamada por José Augusto Ribeiro, na sua notável biografia de Tancredo Neves, de “A noite do destino”.

 

15 de Março de 1985

 

À 1h10m da madrugada, faltando nove horas para sua posse no Congresso, o doutor Pinheiro da Rocha começa a abrir o abdômen de Tancredo Neves. Ele tinha aceito ser operado pela iminência de morte, cianótico, com tremores, febre, taquicardia que chegara a 170 batidas por minuto. Quando o cirurgião abre a cavidade abdominal desaparece o diagnóstico: não era apendicite supurada. Comemora-se na sala de operação.

 

Pinheiro da Rocha acha um tumor benigno, “um leiomioma pedunculado necrosado em abcesso, a cerca de 50 cm da válvula ilíaca”. Remove-se o tumor. É uma operação difícil. Quinze vezes tenta o anestesista introduzir uma sonda gástrica. A pressão e os batimentos cardíacos de Tancredo oscilam. Sofre muito. Tem uma paralisia respiratória: “dispneia intensa e progressiva, grande agitação para respirar”. Faz um edema pulmonar agudo, começa a entrar em choque. Os doutores Rocha e Renault, chamados, voltam correndo. Falavam à imprensa que a operação fora um sucesso. Os anestesistas lutam desesperadamente para recuperá-lo. Ele ressuscita. Irmã Ester, irmã de Tancredo, diz a Dornelles: “Tancredo morre.”

 

Hoje se sabem detalhes de tudo. Naquela noite e madrugada, ninguém sabia de nada, a não ser que tudo correra bem.

 

14 de Março de 1985

 

Ninguém está preparado para essa cilada da História. Brasília é só festa pela volta da democracia, luzes e alegria. A realidade imita a ficção. Chego às 22h30m ao Hospital de Base, onde Tancredo já está internado. Lá encontro Ulysses. Tenho os olhos marejados. Rasga-me a alma o sofrimento de Tancredo. Ulysses me desperta ríspido: “Sarney, não é hora de sentimentalismos. Nossa luta não pode morrer na praia. Temos de tomar decisões. Você assume amanhã, como manda a Constituição, na interinidade do Tancredo.” “Não, Ulysses, assume você. Só assumo com Tancredo.” “Você não pode acrescentar problemas aos que estamos vivendo. É a democracia que temos de salvar.” Saímos ao corredor. Grande aglomeração. Não se discute a tragédia de Tancredo. Discute-se o Poder. Ulysses articula a parte política. A área militar contrária à abertura tenta mobilizar-se.

 

Figueiredo não aceita que eu assuma. Walter Pires ensaia voltar ao Ministério do Exército, e Leitão de Abreu — cujo papel até hoje é minimizado — é o equilíbrio, o bom senso que evita o desastre.

 

O Supremo Tribunal Federal reúne-se secretamente para decidir quem assume e resolve, contra os votos dos ministros Sydney Sanches e Galloti, que deve ser o vice eleito.

 

A História do Brasil está em erupção naquela noite de medos entre perplexidades e improvisações. A Mesa do Congresso decide pela minha posse. Há resistências. Eu, em estado de comoção e depressão, estou em casa e de nada sei. Leônidas e Fragelli, às 3h da manhã, me dizem ao telefone: “Boa noite, presidente.” “Não quero assumir.” Leônidas: “Não temos mais espaços para erros. Boa noite, presidente.” O golpe ronda. A desorientação também.

 

Sabe Deus o que me esperava. Mas realizei a transição e nasceu a Constituição de 88, criamos uma sociedade democrática e venci 12 mil greves. A democracia não morreu em minhas mãos.

 

Dia 21 de Abril de 1985, há 30 anos

 

Incor, 22h24m. Em torno do leito de Tancredo mártir, dona Risoleta, Tancredo Augusto e esposa, Inez Maria, Maria do Carmo, Aécio, Andrea, Angela e Irmã Ester. A máquina da vida começa a desmontar-se. Sua alma liberta-se do corpo e segura na mão de Deus. Cinco minutos depois, Mauro Sales avisa-me. Choro compungido e dobro os joelhos em oração. Vejo a certeza de todas as incertezas. Afonso Arinos proclama: “Muitos deram a vida pelo Brasil, Tancredo deu a morte.”

 

Do seu sofrimento surgiram estes 30 anos de paz e de consolidação da democracia no país. É Tancredo a inspiração destas três décadas. Na eternidade junta-se a Tiradentes.

 

O governo que não foi

por Ricardo Noblat

 

 

Em São Paulo, Tancredo passou por cirurgia de diverticulite no Instituto do Coração. José Sarney, vice-presidente da República na época, deixa o hospital ao lado da esposa Marly Sarney, após visita a Tancredo recém-operado – Arquivo / Agência O Globo

Em um dia qualquer de julho de 1984, no seu apartamento do Bloco D, Quadra 709 Sul, em Brasília, o senador Marco Maciel (PE), um dos líderes da dissidência do PDS, partido da ditadura militar instalada no país há mais de 20 anos, recebia amigos e companheiros de aventura que haviam decidido apoiar a candidatura a presidente da República de Tancredo Neves, 74 anos de idade, então governador de Minas Gerais.

 

A reunião no apartamento de Maciel serviria para sacramentar a candidatura a vice na chapa de Tancredo do senador José Sarney (MA), 54 anos, que renunciara, fazia pouco tempo, à presidência do partido da ditadura. Estavam ali, entre outros, os senadores Jorge Bornhausen (PDS-SC), Guilherme Palmeira (PMDB-AL) e Affonso Camargo (PMDB-PR). A campainha do apartamento soou e Everardo Maciel, economista amigo do anfitrião, foi abrir a porta.

 

O cheiro do fumo de cachimbo denunciou a entrada do senador Pedro Simon (PMDB-RS). Saudado pelos demais, Simon, que era muito ligado a Ulysses, derramou-se numa poltrona, cruzou os braços atrás da cabeça e anunciou em voz alta: “Temos problemas. É que no Rio Grande do Sul, achamos que Sarney é corrupto”. Nem bem ele terminou de falar, Sarney levantou-se e gritou: “Renuncio, indignado, à minha candidatura”.

 

O sempre calmo Maciel, dessa vez aflito, socorreu Sarney: “Minha solidariedade, minha solidariedade”. Os demais senadores fizeram o mesmo. Espantado ou se fingindo que estava, Simon perguntou: “Fiz alguma coisa errada?” O estrago que ele fez só foi consertado depois de mais três ou quatro horas de reunião, e de se apelar por telefone a Tancredo e a Ulysses Guimarães, presidente do PMDB, que estavam na cidade. Sarney foi embora da reunião como vice de Tancredo.

 

Ulysses e Tancredo tocavam de ouvido. E, por sabedoria, às vezes desafinavam. Ulysses e Sarney, jamais. Atravessaram brigando o governo de Sarney. A todo o momento, Ulysses provocava Sarney para testá-lo. Até que ponto Sarney seria fiel à herança de Tancredo? Ou ele acabaria por traí-la quando se sentisse mais forte no cargo? No primeiro ano de governo, Sarney arranjou-se com os ministros escalados por Tancredo. No segundo ano, com os seus.

 

Um dos primeiros ministros a sair foi Francisco Dornelles, da Fazenda, sobrinho de Tancredo e homem da confiança dele. Tancredo dizia: “Meu primeiro decreto terá um único artigo dizendo assim: ‘É proibido gastar’”. Queria dizer com isso que faria um governo austero, preocupado com o equilíbrio das contas públicas. Embora não fosse economista, Tancredo gostava de economia.

 

Por fraqueza política, forçado pelo PMDB de Ulysses a mostrar serviço, Sarney substituiu no Ministério da Fazenda o ortodoxo Dornelles pelo heterodoxo Dílson Funaro. E aí aconteceram fatos que jamais ocorreriam com Tancredo. O Plano Cruzado, por exemplo, que congelou preços e salários. Ele fez de Sarney um deus reverenciado pela maioria dos brasileiros, e deu ao PMDB sua maior vitória nas eleições de 1986 para os governos estaduais.

 

O Plano Cruzado 2, que arquivou o congelamento, foi um desastre que empurrou a popularidade de Sarney para baixo e a inflação para cima. Sarney, mais tarde, deixaria o governo com uma inflação mensal (eu disse: mensal) de 80%. Este ano, a inflação anual (eu disse: anual) ficará em torno dos 8%. A esquerda delirou quando Sarney decretou a moratória da dívida externa. Deu errado. Não tinha como dar certo. Tancredo deve ter-se revirado em seu túmulo.

 

Uma coisa que Tancredo faria, Sarney fez: a legalização dos partidos comunistas. Acuado por Ulysses, Sarney concordou com a instalação da Assembleia Nacional Constituinte para remover “o entulho autoritário”, o conjunto de leis promulgadas pela ditadura. Não haveria hipótese de Tancredo bancar uma Constituinte “livre e soberana”. No máximo, encaminharia ao Congresso uma proposta conservadora de reforma da Constituição.

 

Nada de turbulências, repetia Tancredo. Paz e democracia. Mário Henrique Simonsen, ministro da Fazenda de Ernesto Geisel, o penúltimo presidente da ditadura de 64, costumava alertar: “Cuidado! Não se metam com emendas à Constituição porque elas não concedem o direito de veto ao presidente”. A Constituição parida pela Constituinte reduziu o mandato original de seis anos de Sarney para cinco. Poderia ter sido pior.

 

O PMDB ameaçou aprovar o mandato de quatro anos. Sarney avisou aos partidos por meio do seu ministro da Justiça, Paulo Brossard, que se assim fosse renunciaria ao mandato. Não bastou. Ele então usou os ministros militares para assustar os constituintes. O risco de um golpe bastou. Sarney governou por cinco anos. Nada ganhou a mais com isso. Desceu a rampa do Palácio do Planalto acenando com um lenço branco para as poucas pessoas reunidas ali por perto.

 

‘Não há Pátria onde falta democracia’, nos ensinou

por Aécio Neves

 

Há 30 anos, sob o trauma e a tristeza da doença e morte de Tancredo Neves, o Brasil se despedia de uma longa temporada nas trevas da ditadura para iniciar a sua caminhada rumo à redemocratização. A agonia de Tancredo, que estava destinado a ser o primeiro civil a tomar posse como presidente após os governos militares, marcou profundamente aquele tempo de esperança.

 

Ao longo das três últimas décadas, o país se modernizou, avançou na consolidação de suas instituições, realizou eleições livres periódicas, cultivou a liberdade de imprensa e aprimorou a garantia dos direitos civis. A partir do controle da inflação e do Plano Real, promoveu programas para enfrentar problemas sociais históricos e desenhou uma nação emergente de enorme potencial. Lamentavelmente, muitas dessas conquistas encontram-se hoje na berlinda, ameaçadas pela inépcia, a corrupção e a miopia política de um governo que, imerso em erros colossais, agoniza em praça pública.

 

No momento de tensões acirradas, no qual o governo mostra-se perplexo e sem rumo, a figura de Tancredo se agiganta como um símbolo da verdadeira política protagonista da vida nacional. Não foram poucas e nem pequenas as crises vividas por Tancredo ao longo de sua trajetória pública. Em todas, ele agiu sem trair os princípios e valores nos quais cunhou uma biografia de retidão, integridade e coerência. De forma exemplar, ele mostrou que conciliação e firmeza não eram posturas antagônicas, muito ao contrário.

 

A sua capacidade de construir pontes de diálogo, com atuação reconhecida nos bastidores, se escudava, no entanto, em algo insubstituível para um político da sua estirpe: a leitura atenta das ruas e do sentimento popular. Exatamente o que está ausente hoje nas tramas palacianas, cegas ao clamor popular. Na crença de que o povo deve ser eternamente grato às benesses que teriam sido promovidas pelo PT nos últimos 12 anos, o partido governista se descolou da realidade. Perdeu a conexão com essa mesma rua que as suas primeiras lideranças percorreram nos embates pela construção da democracia. Agora, preferem separar o país entre elite e pobres, inventando um discurso rasteiro que acirra preconceitos, ódios e intolerâncias.

 

Quanto mais se assiste ao esforço desatinado deste grupo para se manter no poder, custe o que custar ao país, mais ressoam como dissonantes e atuais as palavras que Tancredo deixou escritas no discurso preparado para a posse de 15 de março de 1985: “Não chegamos ao poder com o propósito de submeter a nação a um projeto, mas com o de lutar para que ela reassuma, pela soberania do povo, o pleno controle sobre o Estado. A isso chamamos democracia”. À democracia sonhada pelo líder inconteste devemos respeito e reverência. Cumpre aperfeiçoá-la, jamais agredi-la.

 

O compromisso com os valores democráticos deve ser renovado continuamente, especialmente nos momentos mais críticos. Vivemos um período delicado, de apreensão e desencanto, no qual as lideranças governistas tentam construir uma realidade fantasiosa, ainda assim incapaz de encobrir a profundidade e alcance da crise a que fomos submetidos. O exercício da democracia não admite inverdades e omissões. “Não há pátria onde falta democracia”, já nos ensinara Tancredo.

 

O discurso do poder é sempre frágil quando se distancia do debate público e da exposição e compartilhamento transparente de ideias. Sustentadas na mentira e na leitura equivocada da realidade, as palavras perdem o seu significado. Tornam-se o retrato triste da escassez da coragem e da humildade, atributos sempre louváveis em tempos adversos.

 

Mais que nunca, o país anseia por credibilidade. Não há incompatibilidade entre um necessário ajuste fiscal e a manutenção do compromisso social, mas fazê-lo exige uma governança responsável e corajosa. Exige transparência, palavra a ser resgatada na arena pública. Transparência combina com democracia. Combina com o Brasil que nasceu quando reconquistamos a cidadania, tão duramente atingida no período militar.

 

A democracia é um patrimônio da sociedade brasileira, inegociável. Ainda que imperfeita, é a única garantia de que todas as vozes podem e devem ser ouvidas. A nação tem motivos de sobra para se orgulhar de tudo o que foi feito desde que iniciamos o ciclo histórico de retomada plena do Estado de Direito. E, em nome da nossa memória histórica e afetiva, é justo que, no momento em que celebramos os 30 anos de reencontro do país com a democracia, nos recordemos de todos

 

Tancredo, o corpo político

por Merval Pereira

 

 

Em Brasília, Antonio Brito, assessor de imprensa da presidência, anunciou a morte do presidente em 21 de abril de 1985 – Olivio Lamas / Agência O Globo

A tese de que Tancredo Neves, assim como Getúlio Vargas, fez política com seu próprio corpo, defendida pelo ex-porta-voz Antonio Brito utilizando-se dos dotes de jornalista e político, dá bem a dimensão do sacrifício desse homem, que sempre pautou sua atuação política pela defesa dos princípios democráticos.

 

Getúlio saiu da vida para entrar na História com a reação radical e dramática do tiro no peito contra os adversários. Tancredo, temendo que sua ausência, mesmo temporária, prejudicasse a transição do regime militar para o que chamou de Nova República, forçou o corpo até seu limite máximo, não conseguiu assumir a Presidência da República, mas garantiu a transição para um governo civil utilizando-se do colégio eleitoral, um instrumento da ditadura para eleger o presidente da República de maneira indireta e controlada.

 

Sua morte produziu uma das mais belas páginas de nossa História recente, com o povo nas ruas lamentando o governo que poderia ter sido e não foi. Difícil dizer se Tancredo seria o grande presidente de que o país necessitava, ou se seu projeto de governo daria certo. O certo é que ele reunia todas as condições para ser bem-sucedido.

 

Conciliador, nunca deixou de assumir atitudes firmes, quando precisava. Segundo ele, um político “não pode cometer temeridades, mas tem o dever de correr riscos”. E ele correu: na reunião ministerial do Palácio do Catete, pouco antes do suicídio de Vargas, defendeu a resistência. Discursou nos enterros tanto de Getúlio quanto de Jango; acompanhou Juscelino quando o ex-presidente, cassado, teve que depor em quartéis do Exército.

 

Criou o PP para marcar o caráter conciliador de sua política, mas retornou ao PMDB quando o governo militar ditou novas regras eleitorais que prejudicavam a oposição dividida. Foi o único do PSD a não votar em Castelo Branco para presidente, ele que o havia promovido a general a pedido de uma parente quando era primeiro-ministro, e por isso não foi cassado após o golpe militar.

 

Não é razoável comparar homens notáveis em seu tempo com os de outros tempos e costumes, mas é inegável que fazem falta hoje os tancredos, os ulysses, os thales, os petrônios, que tinham a noção da História e atuavam na política de olho nela, do ponto de vista pessoal mas, sobretudo, do próprio país.

 

A Nova República veio aos trancos e barrancos até aqui. Não há mais o perigo do golpe militar que Tancredo Neves temia tanto que se descuidou do corpo. Os poucos que pedem a volta dos militares nas manifestações de rua são desimportantes no atual cenário. Passamos pelo período mais longo de democracia de nossa História recente, e as disputas políticas se travam dentro das regras democráticas, ficando os golpes restritos à retórica política.

 

Já relatei um exemplo pessoal da sua argúcia política, da sutileza com que travava a luta política, e vale a pena relembrar o caso.

 

Dias após o atentado do Riocentro, ocorrido em 1º de maio de 1981, eu, que escrevia a coluna da página 2 do GLOBO “Política Hoje Amanhã”, passava a semana em Brasília e, no dia 4, peguei o voo pela manhã, tendo como companhia o senador Tancredo Neves, que vinha de um encontro com o então governador do Rio, Chagas Freitas.

 

Fomos conversando sobre a gravidade dos acontecimentos até que, como quem não quer nada, Tancredo comentou: “Homem corajoso esse Chagas. O relatório oficial da polícia confirma que havia mais duas bombas no Puma”.

 

Dito isso, mudou o rumo da conversa com a autoridade de quem não queria se aprofundar no assunto.

 

A informação era simplesmente bombástica, sem trocadilho: se no Puma dirigido pelo capitão Wilson Machado havia outras bombas, ficava demonstrado que ele e o sargento Guilherme Pereira do Rosário eram os responsáveis pelo atentado, e não vítimas, como a versão oficial alegava.

 

Telefonei para a redação do GLOBO no Rio dando a notícia para Milton Coelho da Graça, que era o editor-chefe, e ele, empolgado, me disse que fosse para o Congresso tentar tirar mais informações de Tancredo.

 

No seu gabinete no Senado, Tancredo estava cercado de pessoas, pois o ambiente político estava bastante conturbado.

 

Consegui puxá-lo para um canto e pedi mais informações “sobre as duas bombas encontradas no Puma”.

 

Tancredo me olhou sério, colocou sua mão em meu ombro e perguntou, como se nunca houvéssemos conversado sobre o assunto: “Você também ouviu falar disso, meu filho?”

 

Diário inédito da agonia do presidente

por Frei Betto

 

27 de março de 1985, quarta-feira

 

Tancredo Neves transferido, ontem, de Brasília para São Paulo. Liguei para Dom Paulo Evaristo Arns e sugeri ir visitá-lo. A família Neves, aliada ao PSD de Juscelino, sempre manteve amizade com meus pais, simpatizantes da UDN. Tancredo Augusto, único filho homem do presidente, foi meu colega no ginásio. Em minha casa, em Belo Horizonte, estudávamos para as provas semestrais. O cardeal de São Paulo assentiu. Fomos ao Instituto do Coração (Incor) no fim da tarde. Dom Paulo celebrou missa para a família Neves. Ao final, dona Risoleta agradeceu e pediu que ele fizesse o mesmo no dia seguinte. O cardeal lamentou não poder estar presente todos os dias, mas eu o faria em seu nome.

 

4 de abril de 1985, quarta-feira da Semana Santa

 

Ontem à tarde, o presidente sofreu mais uma intervenção cirúrgica no Incor. Extirparam-lhe uma pequena hérnia. Padre Léo (Leocir) Pessini, da Ordem dos Camilianos, celebrou no 4º andar do Incor para família e amigos. Acolitei. Em seguida, dona Risoleta e os filhos, Inês Maria e Tancredo Augusto, desceram para o 3º andar para verificar como doutor Tancredo reagira à cirurgia. Na missa, presente o ministro da Educação, Marco Maciel. Ao terminar, sugeri ao padre Léo que fôssemos ao 3º andar orar com a família. Vestimos as roupas apropriadas e entramos na UTI. Doutor Tancredo acabava de chegar da sala de cirurgia ao seu quarto, pequeno, isolado, não tão grande quanto eu imaginava. Tão cercado de médicos e enfermeiras que, de início, não cheguei a vê-lo. O clima entre os profissionais de saúde era de extrema euforia. Acreditavam ter debelado o foco da infecção.

 

Quando o ajeitaram na cama, com a sonda passando por baixo do lençol, a enfermeira tomou-lhe a temperatura. Pude vê-lo: sereno, o rosto aparentemente saudável, tranquilo diante de tantos cuidados. Eram 19h15m. Eu estava preocupado com a aula sobre realidade rural que daria, às 20h, no Instituto Sedes Sapientiae. Sugeri ao padre Léo irmos embora, mas ele convidou-me para, antes, passar na UTI dos cardíacos. Dei uma olhada nos pacientes e, ao sair, Inês Maria nos chamou. Entramos no quarto do doutor Tancredo. Padre Léo ficou à esquerda do presidente, ao lado de dona Risoleta. Tancredo Augusto aos pés da cama. Inês Maria e eu do lado esquerdo. Padre Léo disse que ali estávamos para agradecer a Deus o êxito da cirurgia. Tancredo Neves me reconheceu e disse: “Você está cada vez mais novo”. E o senhor está muito bem, melhor do que eu pensava. Virou-se para dona Risoleta: “Eu me lembro dele na porta lá de casa esperando o Tancredo Augusto”. E para mim: “E como vai o Antônio Carlos?”, indagou por meu pai. Mandou um grande abraço. Tem acompanhado tudo. Doutor Tancredo segurou minha mão e chorou quando eu terminava a prece de louvor pela recuperação dele. Meu pai, Antônio Carlos Vieira Christo, é signatário do Manifesto dos Mineiros, que favoreceu a derrubada da ditadura Vargas. Tancredo foi ministro de Vargas. Apesar disso, mantiveram cordial amizade ao longo da vida. Coisas de Minas…

 

11 de abril de 1985, quinta-feira santa

 

Pela manhã, participei de assembleia no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, no Paço Municipal de São Bernardo do Campo. Cinquenta mil trabalhadores em greve. Puxei um Pai-Nosso pela saúde do presidente. Almocei com Lula no restaurante Pavão de Ouro. Dali fui para o Incor. O governador de Minas, Hélio Garcia, no fim da tarde, chorou ao meu lado. Disse não ter mais esperança, não acreditar em mais nada, e que há 28 dias não consegue governar. Adverti que ele não deveria demonstrar esse pessimismo à nação. Em seguida, foi conversar com o doutor Henrique Pinotti, um dos médicos que acompanhavam o presidente. A família Neves não participou da missa de hoje. Na hora, doutor Pinotti, doutora Angelita Gama e outros médicos ficaram reunidos no refeitório improvisado do 4º andar com dona Risoleta, Maria do Carmo e Tancredo Augusto, para comunicar que o presidente sofreria a sétima cirurgia para extrair novo foco. O clima ficou tenso. Dona Risoleta não jantou. Irritada com o assédio de tantos políticos no Incor, pediu que todos deixassem a família a sós. Vi ministros e governadores saírem com o rabo entre as pernas.

 

Domingo de Páscoa, 14 de abril de 1985

 

À tarde, os médicos jogaram a toalha. Comunicaram à família Neves que não havia mais nada a fazer. Um por um, os familiares foram chamados à UTI para as despedidas finais. Com dona Risoleta, Inês Maria, Maria do Carmo e Tancredo Augusto desceram doutor Aloysio Neves e a irmã do presidente, Esther Neves, religiosa. Desceram também os netos: Aecinho, Angela e Andrea. Todos se encontravam junto ao leito do presidente quando também fui chamado. Doutor Tancredo tinha o rosto arroxeado. Dona Risoleta colocou-lhe a dentadura. Fiz uma oração pela saúde dele e supliquei a misericórdia de Deus. Completei com o Pai-Nosso. Um médico se aproximou de dona Risoleta, que se postava à cabeceira da cama, e disse qualquer coisa ao ouvido dela. Ela respondeu tranquila, apesar de pálida e abatida: “Nós não temos direito. Deus é quem decide. Não podemos nos adiantar à vontade de Deus. Ele pode querer o milagre”.

 

Chegou de Brasília o padre Décio Assunção, salesiano. Rezou em latim para anunciar que se tratava da absolvição de todos os pecados. Irmã Esther trazia em mãos o livro do ritual da unção dos enfermos (que o presidente já havia recebido do padre Léo na quinta-feira santa) e os santos óleos. Padre Décio deu-lhe de novo a unção dos enfermos e pôs o óleo sagrado em sua testa. O rosto do doutor Tancredo começou a voltar à cor normal. Frei Hugolino Tsach, franciscano, especialista em bionergia, fez-lhe imposição das mãos durante cinco minutos. Doutor Tancredo melhorou a olhos vistos. Frei Hugolino saiu, descansou e voltou para fazer nova imposição. O paciente reagiu bem. A partir daí, estabilizou-se o seu quadro clínico.

 

17 de abril de 1985, quarta-feira

 

Às 19h30m, o vice-presidente Sarney chegou ao Incor. O governador Franco Montoro nos apresentou. O astral da família Neves melhorou após o pronunciamento clínico do doutor Walter Pinotti, às 16h, fazendo retornar a esperança de recuperação. Na missa celebrada diariamente no Incor, padre Arlindo, mestre de frei Hugolino, disse que se pudesse falar ao ouvido do presidente diria: “Você já cumpriu sua missão, uniu o povo brasileiro” e “agora deve se entregar à vontade de Deus e descansar em paz.” Vi que a família Neves se abateu. Pedi a palavra antes de encerrar a celebração. “Tenho falado ao ouvido de Deus. E o Pai sabe que sou um filho rebelde. Muitas vezes não me conformo com a vontade Dele, certamente por estar acima da minha compreensão. Então rezo em protesto, como o salmista. E, nesses dias, insisto com o Pai para atender as preces do povo brasileiro e dar saúde ao doutor Tancredo, já que Ele mesmo diz no Evangelho que nenhum pai dá pedra ao filho que pede pão. Então, Ele que nos dê, especialmente ao doutor Tancredo, o pão da saúde e da vida”. A família ficou aliviada.

 

22 de abril de 1985, segunda-feira

 

Ontem, meu relógio marcava 22h15m quando os equipamentos foram desligados. Naquele momento, o coração do doutor Tancredo registrava um batimento por minuto. Vi-o transvivenciar. Ao meu lado, dona Risoleta exclamou diante do choro convulsivo de seus filhos: “Sejam fortes, meus filhos. Aqui vocês têm um exemplo de dignidade. Façam desse exemplo o exemplo de suas vidas”. Em torno da cama estavam, do lado direito do paciente, Beth e seu marido, Tancredo Augusto; irmã Esther; doutor Aloysio; padre Léo e eu. Ao pé da cama, Aecinho. À esquerda, Angela, filha de Inês Maria, Gilberto Faria e Maria do Carmo. Doutora Angelita Gama postou-se aos pés do falecido. Outros médicos estavam presentes. Do lado de fora, Doutor Pinotti mostrava-se arrasado. Cumprimentei doutora Angelita: “A senhora foi mais mãe do que médica”. Foi ela quem, às 17h40m, subiu ao 4º andar para comunicar que o fim estava próximo. Antes de o paciente expirar, padre Léo rezou uma Ave-Maria. Em seguida, agradeci o dom da vida dele e rezei um Pai-Nosso. Tancredo Augusto murmurou: “Vamos ser fortes”.

 

Minutos após a morte, a família retornou ao 4º andar. Dona Risoleta demonstrava firmeza. O coronel do SNI, responsável pela segurança da família do presidente, veio me dizer que não haveria lugar para mim no avião que levaria o féretro e a família a Brasília. Respondi que não tinha interesse de ir, pois já cumprira minha missão. Pouco depois, dona Risoleta me perguntou se eu iria a Brasília. Repeti o recado do coronel. Ela elevou a voz: “Você é da família. Irá conosco no avião”. Imediatamente, fui credenciado. Na rua, o povo gritava: “Rei, rei, rei, Tancredo é nosso rei. Generais jamais! Tancredo está na rua, a luta continua! O povo unido jamais será vencido!”.

 

Ontem à noite, escutei o delegado Romeu Tuma comentar que era preciso evitar que Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal-arcebispo de São Paulo, participasse do cortejo fúnebre. Segundo me disseram, o protocolo da República reza que encabeça o cortejo o ministro da confissão religiosa do presidente falecido. Hoje bem cedo, liguei para dom Paulo do orelhão em frente ao Incor, contei o que ouvira e insisti que viesse. No cortejo até o aeroporto, segui de carro atrás da viatura do Corpo de Bombeiros que levava o caixão. À minha frente, o carro de dona Risoleta com Aecinho e Andrea. Atrás, Tancredo Augusto e Beth, seguidos por dom Paulo Evaristo Arns e dom Luciano Mendes de Almeida, bispo auxiliar de São Paulo. Um mar de gente no trajeto ao aeroporto. O povo chegou a empurrar o carro do Corpo de Bombeiros, que esquentou demais. No voo de São Paulo a Brasília, dona Risoleta me pediu para falar na missa de corpo presente, no Palácio do Planalto. Respondi que isso dependia de autorização do arcebispo local, o que não ocorreu. No Planalto, o cerimonial marcou no chão o lugar de cada autoridade. Não constava meu nome. Postei-me além das marcas, ao lado de Roberto Marinho.

 

23 de abril de 1985, terça-feira

 

O corpo de Tancredo Neves foi velado no Palácio da Liberdade. A multidão se espremia diante da sede do governo de Minas. Todos queriam se aproximar do caixão. A segurança fechou os portões do palácio. Houve empurra-empurra, gente caída e pisoteada. Vesti meu hábito dominicano, chamei dona Risoleta, familiares e autoridades, subimos para a sacada do palácio e erguemos as mãos na oração do Pai-Nosso. A multidão se acalmou. O coronel do SNI mais uma vez tentou interromper meus passos. Disse que não poderia acompanhar a família na viagem de Belo Horizonte a São João del-Rei, pois ela seria transportada, com o esquife, em helicópteros da FAB. Teria que ir de carro ou ônibus. Respondi que dava por encerrada a minha missão. Despedi-me de dona Risoleta. Meus pais moram na rua Tomé de Souza, que passa nos fundos do palácio. Ali, em conversa com meus irmãos, fiquei convencido de que deveria ir a São João del-Rei.

 

24 de abril de 1985, quarta-feira

 

Despertei às 5h da manhã e me dirigi ao Palácio da Liberdade. Pedi à segurança que me anunciasse a dona Risoleta. Ela tomava café. Antes que dissesse qualquer coisa, ela se adiantou: “Passei a noite pensando como descobrir o telefone de seus pais para que você nos acompanhe a São João del-Rei”. Fui no helicóptero da família, para decepção do coronel. Por insistência de dona Risoleta, o bispo de São João del-Rei deu-me a palavra na missa de corpo presente do doutor Tancredo, na igreja de São Francisco. Concelebraram: dom Lucas Moreira Neves; dom Antonio Carlos, bispo da diocese local; dom Estêvão Cardoso de Avelar, bispo de Uberlândia; dom Oscar, bispo de Mariana, e outros.

 

Falei após a comunhão: “Ao ser internado no Instituto do Coração, doutor Tancredo fez três pedidos: primeiro, que não desejava receber notícias de fora. Sábia decisão de quem aprendeu que o corpo, preso a um cárcere ou a um leito, não pode permitir que a cabeça se separe dele, na ansiedade de situações nas quais já não pode intervir. Assim, doutor Tancredo pôde reunir todas as suas energias para empenhar-se na própria sobrevivência. O segundo pedido foi para os médicos, que o mantivessem permanentemente a par do seu processo clínico, de modo que, na medida do possível, pudesse ele interferir nas decisões. O terceiro, que rezassem por ele. Queria conservar viva a fé que adquiriu desde a infância e levou desta cidade que o povo, agora, trata carinhosamente de São João del-Presidente. Na Semana Santa, pediu que o padre Léo, capelão do Hospital das Clínicas, e eu lêssemos para ele a “Paixão segundo São Lucas”. Utilizei o livro de Leonardo Boff, “A Via Sacra da Ressureição”. Lembrou, na sexta-feira Santa, que aquele era o dia em que deveria estar em São João del-Rei participando da procissão do Senhor Morto e carregando o candelabro de prata, como sempre fazia. Ali, do seu leito, ele se unia a toda nação brasileira que rezava, confiante em sua recuperação. No 9º andar do Instituto do Coração, formou-se uma pequena comunidade de fé que, diariamente, participava da celebração eucarística, unindo-se também às preces populares. Vivíamos, em nossas orações, momentos de esperança e angústia, espelhados para a nação no semblante do Antônio Britto, porta-voz do presidente. Por vezes repetíamos a imprecações dos salmistas, suplicando ao Senhor que preservasse a vida de doutor Tancredo e, aflitos, rezávamos com o próprio Jesus: “‘Meu Deus, por que me abandonastes?’”

 

“Contudo, os desejos do Pai transcendem os nossos e, sobretudo, desafiam a nossa razão. Tancredo morre como um novo Moisés, que soube reunir o seu povo e conduzi-lo à Terra Prometida, na qual ele mesmo não entrou. Mas, assim como o grão de trigo cai na terra e frutifica, a semente plantada pelo doutor Tancredo faz germinar a Nova República. Alcançá-la foi resultado de longa saga do povo brasileiro no decorrer de 21 anos de autoritarismo. Todo esse sofrimento foi culminado pela enfermidade de Tancredo. Agora, definitivamente, ele toma posse do coração de cada brasileiro”.

 

Almocei no Solar dos Neves. À mesa, o presidente José Sarney; Franco Montoro, governador de São Paulo; Leonel Brizola, governador do Rio; Ulysses Guimarães, presidente da Câmara; e Olavo Setúbal, ministro das Relações Exteriores. Só o doutor Tancredo para reunir, à mesa de sua casa, tantos presidenciáveis… O almoço havia sido preparado para 50 pessoas. Comeram 20. No cardápio, estrogonofe de filé, rosbife com farofa, salada, arroz e, de sobremesa, torta de chocolate, pudim de leite e pastel folhado.

 

O presidente Sarney e seus ministros mostravam-se ansiosos pela rápida realização do enterro. Segundo me disseram, o protocolo da República exige que o presidente em exercício não se ausente enquanto o esquife do antecessor não baixar à sepultura. Ao ver a multidão enfileirada para prestar sua última homenagem ao pai falecido, Tancredo Augusto sugeriu retardar o enterro até que o último são-joanense se aproximasse do esquife. Isso demorou cinco horas. E determinou que vereadores locais tivessem, no cemitério, precedência sobre ministros. Como a Igreja Católica não permite cerimônias fúnebres no período noturno, pedi ao bispo de São João del-Rei abrir exceção. Ele assentiu. Sarney e seus ministros se viram obrigados a esperar.

 

Como o Solar dos Neves não previu jantar, e os restaurantes da cidade tinham esgotado seus estoques de alimentos, devido ao afluxo de jornalistas e curiosos, presenciei algo inusitado: as supremas autoridades da República saciando a fome com quentinhas vindas do 11º Batalhão de Infantaria de Montanha, sediado na cidade. O enterro foi às 22h. Falaram Marcelo Santiago Costa, desembargador, pela irmandade de São Francisco; o governador Hélio Garcia repetiu a comparação com Moisés em seu discurso; Ulysses Guimarães foi o mais contundente, falou da fome, do povo e da justiça social. Começava ali um novo capítulo da história republicana do Brasil.

 

Fonte: O Globo, foto: Sérgio Marques / Agência O Globo – Negativo 85-6358 – 22/04/2015
Blog do Sombra
Manifestações

A CAPITAL DA ESPERANÇA

Brasília é o retrato do Brasil

 

Na sala de embarque de Guarulhos, duas senhoras puxam conversa enquanto aguardam o chamado para o voo para Brasília. “Cuidado com a carteira, só tem ladrão por lá”, me diz uma delas. Provoca risinhos de cumplicidade da amiga e ira de minha parte.

 

“Vou começar a me cuidar agora, afinal foram vocês que mandaram eles pra lá”, respondo, para espanto da dupla…

 

Se há algo que me tira do sério é esse discurso quase sempre vazio e que bebe na fonte das generalizações e dos lugares-comuns quando se fala da Capital da República.

 

Eu adoro Brasília. Nasci na Bahia, mas minha família se mudou para lá quando eu era criança e me sinto também brasiliense. Portanto, cuidado ao falar mal da minha cidade por adoção que completa nesta terça-feira, 21 de abril, 55 anos.

 

Em um momento #prontofalei, continuo meu desabafo com as duas senhoras. Dizer que Brasília é “terra de ladrão” é de um primarismo sem tamanho. Como microcosmo do Brasil, Brasília talvez seja a nossa melhor e pior tradução.

 

É bom lembrar que os políticos lá chegam enviados pelo voto de brasileiros que reconquistaram esse direito há 25 anos. E como nossos representantes democraticamente eleitos, eles são a nossa cara, gostemos ou não do reflexo no grande espelho que é o Congresso Nacional e seus arredores.

 

Para os que torcem o nariz para a composição da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, recomendo dar uma olhada na sua vizinhança (as Assembleias Legislativas do seus Estados, as Câmaras Municipais) antes de atirar a primeira pedra numa Brasília convertida em Geni.

 

Quando vejo alguém postar nas redes sociais a hashtag #fulanonãomerepresenta, penso no bordão: “Sabe de nada, inocente”. Os políticos eleitos nos representam, sim, queiramos ou não.

 

Podemos contestar o sistema eleitoral e seus vícios, criticar as bancadas e seus interesses paroquiais, lamentar a presença de “nanicos” e as legendas de aluguel que tomaram de assalto os corredores do poder.

 

É grande a lista do que está errado no atual modelo de representação que nos leva à urgência da tão falada Reforma Política. E isso só para ficarmos no parlamento, sem falar nas mazelas do Executivo e do Judiciário, que também contribuem para macular a “imagem” de Brasília.

 

SEM HIPOCRISIA

BLOG DO SOMBRA

 

Não sejamos hipócritas. O Brasil não é melhor do que os seus homens públicos. Nossos representantes são o retrato acabado da mediocridade e da falta de renovação dos quadros políticos e de lideranças em tantos segmentos.

 

Também não é o caso de generalizar ou cair em um discurso moralista de demonizar a política e os políticos. Sempre haverá aqueles que chegam a Brasília preocupados com os destinos do país e de seu povo. Assim como os picaretas, que já foram até quantificados em 300 e devem ser até bem mais hoje em dia.

 

Enfim, os bons e os maus políticos são ilustres representantes de um Brasil que se equilibra no “jeitinho”, enquanto brada por mais ética e menos roubalheira. Brasileiros que chamam todos os políticos de corruptos e declaram abaixo o valor da compra do imóvel para pagar menos impostos, assim como aceitam desconto no orçamento do dentista em troca de não exigir recibo. E não venham me dizer que somos todos corruptos. Todos o caramba!

 

Esse é um longo parêntese para explicar o meu desabafo com as duas paulistas que repetiram o que tantos brasileiros vivem dizendo por aí. Brasília é a síntese de um Brasil que avançou em tantas áreas, mas perdeu régua e compasso em várias outras.

 

O país do “salve simpatia” hoje é habitado por legiões de trogloditas que jogam latinha de cerveja pelo vidro do carro, cortam pelo acostamento e aceleram quando veem o carro da frente dá sinal de que vai entrar.

 

Tomei exemplos do trânsito, por ser um território onde a brutalidade verde-amarela pode ser medida cotidianamente. Ela se traduz na assustadora estatística cristalizada ao longo de décadas de 50 mil mortes anuais. Convivemos com tais números pavorosos e sempre botamos a culpa sempre nos políticos.

 

Foi assim que o papo terminou com as duas senhoras na fila de embarque. Ao final, elas concordaram comigo e uma delas até me confidenciou: “Fui visitar uma amiga e até gostei de Brasília”.

 

PRAÇA BRASILIENSE

 

Eu amo Brasília. O Plano Piloto foi cenário da minha adolescência. Cresci numa superquadra da Asa Sul, dentro de um conceito de morar que nasceu das pranchetas e do gênio de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Era uma delícia encontrar a turma debaixo do bloco -os edifícios de pilotis transformados em praça. Uma Brasília que talvez sobreviva apenas na minha memoria afetiva.

 

A capital moderna e do futuro encontrou pela frente o Brasil real. O ordenamento urbano idealizado por seus criadores foi atropelado por um inchaço populacional que hoje se traduz em engarrafamentos e índices crescentes de violência.

 

Brasília, no entanto, evoca em mim Bossa Nova. Aquele Brasil de JK, dos anos 1960, charmoso, refinado e orgulhoso de sua grandiosidade. Eu vivi a Brasília do rock’n'roll, resposta de uma geração que cresceu na Capital Federal e no Brasil dos generais. Deixei Brasília nos final dos anos 1990.

 

Hoje, quando retorno para visitar parentes ou a trabalho, tenho a sensação de que a Brasília de Niemeyer foi sufocada por outra, que tem mais a cara de Goiás, o Estado que abrigou a nova capital.

 

O arquiteto das curvas perdeu a parada para Joaquim Roriz e outros administradores da mesma estirpe e dos mais variados matizes ideológicos. Todos aquém do belo sonho de uma capital de vanguarda no centro de

um planalto vazio.

 

DO ROCK AO SERTANEJO

 

Essa nova face se traduz na trilha sonora. Arrisco dizer que os jovens brasilienses, tanto do Plano Piloto quanto das cidades satélites, hoje ouvem mais música sertaneja do que o forró dos candangos nordestinos, que foram para Brasília erguer a cidade planejada e por lá ficaram espalhados pelos seus arredores.

 

Também não se ouve tanto o repique do samba, preferência dos cariocas que eram maioria no funcionalismo público para lá transferido.

 

Constatações que não diminuem o amor que sinto por aquela terra avermelhada e por aquele céu único e infinito de Brasília. Portanto, turistas, moradores, políticos, candangos e brasilienses, da gema ou adotados, mais respeito com a minha cidade.

 

Fonte: Por Eliane Trindade, coluna Rede Social, foto: Eliane Trindade/Folhapress IMG-20150421-WA0005
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